Simone Centurione busca revelar a mulher por trás da coroa em “Diana”
- Raphaela Cunha

- há 2 dias
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Atriz conversou com Glowmag sobre o novo momento na carreira, o reencontro com o diretor Tadeu Aguiar e o audiovisual. “Tenho muita vontade de ir além do que eu já faço”

“Me exigiu coragem, entrega, devoção”. É assim que Simone Centurione define o desafio de interpretar a Rainha Elizabeth, personagem que marca um momento decisivo em sua trajetória artística. A atriz está em cartaz com o musical “Diana – A Princesa do Povo”, no Teatro Liberdade, em São Paulo, conta com exclusividade a Glowmag, que tem sido um papel instigante de sua carreira, exigindo sensibilidade para transmitir emoções de forma contida.
“Esse papel me fez entender que a emoção não precisa ser mostrada o tempo todo. Às vezes, ela é mais forte quando é sustentada, quando permanece ali, quase invisível, mas viva”, afirma.
A experiência, segundo ela, vai muito além da construção de uma figura histórica e é representada também no amadurecimento artístico. Ao mergulhar nas camadas da personagem, Simone descobriu novas formas de expressão em cena, apostando na sutileza, que convida o público a enxergar a monarca para além da rigidez protocolar, revelando a mulher por trás da coroa.
“As pessoas já têm uma imagem formada da Rainha. Eu respeito ao atuar. Mas, ao mesmo tempo, não tento apenas reproduzir uma figura histórica de forma superficial. O meu interesse também é encontrar a humanidade daquela mulher. O que ela sente, o que ela reprime, o que ela sustenta”.

Confira a entrevista completa:
GLOWMAG: Interpretar a Rainha Elizabeth representa um novo momento na sua carreira. O que esse papel despertou artisticamente em você?
SIMONE CENTURIONE: Interpretar a Rainha Elizabeth representa um novo momento na sua carreira. O que esse papel despertou artisticamente em você? Interpretar a Rainha me levou para um lugar muito diferente do que eu vinha fazendo. Eu sempre fui uma atriz com impulsos mais expansivos, com uma veia cômica muito forte. E, de repente, me vi diante de uma personagem que se constrói justamente no oposto: na contenção. Isso me exigiu coragem, entrega, devoção… e, principalmente, um enfrentamento comigo mesma. Foi quase um processo de me domar,de lutar contra a minha própria bagagem como atriz e como pessoa, mas de forma silenciosa, elegante e muito potente.
Porque é um silêncio que grita. Esse papel me fez entender que a emoção não precisa ser mostrada o tempo todo. Às vezes, ela é mais forte quando é sustentada, quando permanece ali, quase invisível, mas viva. Foi um exercício profundo de maturidade artística — de confiar menos no excesso e mais na precisão. De confiar na força do silêncio e de construir uma mulher que, para ocupar a coroa, precisou lutar constantemente contra si mesma… e ainda assim sustentar o papel que lhe era exigido, mesmo quando, como mulher, aquilo não a atravessava da mesma forma.
GM: Como foi encontrar emoção nos silêncios e nos pequenos gestos da Rainha?
SC: Foi um dos maiores desafios — e também um dos maiores prazeres. Porque o silêncio, no palco, pode ser muito mais revelador do que a fala. Eu tenho duas imagens muito fortes que me atravessaram nesse processo. Uma vez assisti a uma peça, não lembro o nome, mas nunca esqueci de um ator que entrava em cena e não dizia nada. Ele ficava ali, imóvel… e não era vazio. A presença dele gritava. Aquilo me marcou profundamente. E, em outra ocasião, vi um show da Zizi Possi em que ela cantou uma música inteira praticamente sem se mover.
No final, ela fez um gesto mínimo com o braço e aquilo ganhou um sentido imenso. Foi de uma delicadeza absurda… e também ficou comigo. Essas imagens me acompanharam na construção da Rainha. Porque ela não se permite tudo. Então o trabalho foi justamente encontrar o que escapa: um olhar que dura meio segundo a mais, uma respiração que muda, um gesto mínimo que denuncia o que ela não pode dizer… às vezes um baixar de cabeça, um fechar de punhos. Eu fui descobrindo que existe ali uma emoção muito viva, muito intensa, mas comprimida. E isso, para mim, é profundamente humano.

GM: Sua trajetória sempre transitou entre atuação e música. Em que momento você percebeu que o teatro musical seria seu principal caminho artístico?
SC: Eu acho que não foi uma decisão única… Foi um reconhecimento ao longo do caminho.
Sempre existiu em mim essa necessidade de contar histórias com a voz, com o corpo, com a emoção. E, ao mesmo tempo, sempre existiu também o desejo de criar minhas próprias narrativas... Meus shows, minhas músicas, meus filmes, meus vídeos, meus poemas… A partir da minha própria vivência.
Quando entrei no teatro musical, encontrei um lugar onde tudo isso podia coexistir. Ele exige muita técnica, mas também oferece um espaço muito potente de expressão. No momento em que percebi que eu conseguia unir atuação, canto e presença em um mesmo lugar, entendi que não era só uma possibilidade… era um lugar de pertencimento artístico.
Mas eu não me limito a isso. Eu tenho uma necessidade muito grande de transitar, de experimentar, de criar em diferentes formatos. A arte, pra mim, não cabe em um único lugar… ela precisa de movimento, de expansão. E eu quero continuar ocupando todos os espaços que me permitam viver isso.
GM: “Diana – A Princesa do Povo” aborda figuras públicas muito conhecidas mundialmente. Existe uma pressão maior ao interpretar personagens reais?
SC: Existe, sim. Porque as pessoas já têm uma imagem formada. Eu respeito essa imagem ao atuar. Mas, ao mesmo tempo, eu não tento apenas reproduzir uma figura histórica de forma superficial. O meu interesse também é encontrar a humanidade daquela mulher. O que ela sente, o que ela reprime, o que ela sustenta. Quando você entra nesse lugar mais profundo, a pressão externa diminui… porque você deixa de fazer uma imitação e passa a construir uma presença viva, e não apenas uma referência reconhecível.
GM: Ao longo da carreira, você passou por musicais, dublagem, audiovisual e até direção. Como essas diferentes experiências influenciam sua atuação no palco hoje?
SC: Influenciam completamente. A dublagem, por exemplo, me trouxe uma consciência muito grande da intenção na voz… De como você pode construir uma cena inteira só com som. O audiovisual me trouxe economia. A câmera não aceita excesso, então isso me ensinou a depurar. E a direção me deu um olhar de fora. Hoje, quando estou em cena, também estou atenta à estrutura, ao ritmo, à narrativa. Tudo isso acaba se encontrando no palco de uma forma muito orgânica e muito rica.
GM: Você trabalhou anteriormente com o diretor Tadeu Aguiar. Como foi reencontrá-lo neste projeto e o que essa parceria acrescenta ao processo criativo?
SC: Trabalhar com o Tadeu é sempre um encontro muito gratificante, sensível, inteligente e amoroso. Ele tem um olhar extremamente cuidadoso com o ator. Ele escuta, propõe, mas também dá espaço para que a construção aconteça. Isso, para mim, é fundamental.
Nesse processo, ele me deu segurança para explorar esse caminho mais contido da Rainha, sem medo de parecer “menos”. Pelo contrário, entendendo que, ali, menos é mais.
O Tadeu tem uma sensibilidade e inteligência muito grandes para acessar o que é interno no ator. De forma muito delicada, ele sabe provocar, instigar… e fazer com que a gente acesse lugares profundos. Foi um processo desafiador para mim, mas sempre com esse amparo, com um olhar atento, presente, que às vezes acolhe, às vezes provoca. O que é maravilhoso, mas sempre com o objetivo de fazer a gente chegar no melhor que pode oferecer. Essa parceria me traz confiança e profundidade, e me desafia constantemente a ir além do que eu achava que podia entregar.

GM: Depois desse momento de amadurecimento artístico em “Diana”, quais desafios e personagens você ainda sonha em explorar no teatro e no audiovisual?
SC: Eu tenho muita vontade de ir além do que eu já faço, não no sentido de fazer mais, mas de ir mais fundo. Me interessam todos os personagens, especialmente aqueles que carregam conflito, contradição… mulheres comuns e também as que vivem grandes movimentos internos, que não sejam óbvias. Porque é nesse lugar, onde tudo se mistura, que eu me reconheço como atriz.
Tenho, sim, o desejo de expandir para o audiovisual, em projetos que tragam novas formas de narrativa, que tenham identidade e que me permitam participar da construção... Não só interpretar, mas criar junto. E, ao mesmo tempo, eu sigo muito conectada ao palco. Porque é ali que tudo acontece no presente, no risco, sem filtro. No fim, não é sobre o formato. É sobre estar em trabalhos que me provoquem, porque eu acredito que todo personagem carrega um universo a ser descoberto. E é isso que me move: continuar explorando, entendendo e dando vida a esses mundos.



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