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Velson D’Souza fala sobre retorno ao teatro de prosa com “Oleanna”

Foto do escritor: Raphaela Cunha
Raphaela Cunha
23 de jun.
4 min de leitura

Montagem no Teatro Vivo coloca em cena tensões que seguem atuais dentro e fora dos palcos

Em temporada até 17 de julho no Teatro Vivo, em São Paulo, “Oleanna”, de David Mamet, traz Venilson D’Souza em um dos trabalhos mais desafiadores de sua carreira - Foto Ricardo Pepeliskoff
Em temporada até 17 de julho no Teatro Vivo, em São Paulo, “Oleanna”, de David Mamet, traz Venilson D’Souza em um dos trabalhos mais desafiadores de sua carreira - Foto Ricardo Pepeliskoff

Até o dia 17 de julho, quem estiver pela capital paulista poderá assistir a Venilson D’Souza em “Oleanna”, de David Mamet, em temporada no Teatro Vivo, em São Paulo. Após se destacar no musical biográfico “Silvio Santos Vem Aí”, o ator agora enfrenta um novo desafio na carreira.


A montagem acompanha o encontro entre um professor universitário e sua aluna, explorando uma relação marcada por disputas de poder, linguagem e diferentes formas de interpretação. A narrativa evidencia como essas dinâmicas podem se tornar diferentes formas de interpretação. “Conheci Oleanna durante o mestrado que fiz em Nova Iorque e o texto nunca saiu de mim. Sempre tive vontade de montá-lo. Então esse retorno acontece por um desejo de reencontro com esse tipo de teatro mais intimista, mais direto, em que a relação entre ator, texto e público fica completamente exposta”, afirma.


“Oleanna” também ganhou uma adaptação para o cinema em 1994, com roteiro e direção do próprio David Mamet, baseada na peça original escrita dois anos antes. Na versão cinematográfica, o professor John foi interpretado por William H, Mocy, ampliando as camadas de leitura da obra ao longo do tempo. É nesse espaço de ambiguidades e interpretações em disputa que Velson estrutura sua investigação cênica. “O que sempre me impressionou em Oleanna é a capacidade que o texto tem de gerar debate. Ele não oferece conforto nem soluções simples. E, ao longo dos anos, fui percebendo que os temas da peça continuavam muito presentes na sociedade”, observa.


Confira a entrevista completa:

Venilson D’Souza está em cartaz com a peça “Oleanna”, no Teatro Vivo, em São Paulo - Joaquim Araújo
Venilson D’Souza está em cartaz com a peça “Oleanna”, no Teatro Vivo, em São Paulo - Joaquim Araújo

 

GLOWMAG - Após interpretar Silvio Santos e participar de grandes musicais, o que motivou seu retorno ao teatro com "Oleanna"?

VELSON D’SOUZA - Eu venho do teatro de prosa. O musical acabou ocupando um espaço importante na minha trajetória nos últimos anos, mas o teatro sempre foi um lugar onde me reconheço muito como artista. Eu conheci Oleanna durante o mestrado que fiz em Nova Iorque, e o texto nunca saiu de mim. Sempre tive vontade de montá-lo. Então esse retorno acontece por um desejo de reencontro com esse tipo de teatro mais intimista, mais direto, em que a relação entre ator, texto e público fica completamente exposta.

 

GM - Você conheceu o texto de David Mamet durante o mestrado em Nova Iorque. O que fez essa obra permanecer tão presente ao longo dos anos?

VS - Foi um daqueles textos que ficaram comigo mais como uma inquietação do que como uma resposta. Eu me lembro de terminar a leitura e continuar pensando nele durante dias. O que sempre me impressionou em Oleanna é a capacidade que o texto tem de gerar debate. Ele não oferece conforto nem soluções simples. E, ao longo dos anos, fui percebendo que os temas da peça continuavam muito presentes na sociedade. Talvez até mais hoje do que quando ela foi escrita.

 

GM - "Oleanna" aborda temas delicados ligados a poder e interpretação. Como esses debates dialogam com a sociedade atual?

VS - Acho que dialogam de forma muito direta. Vivemos um momento em que questões relacionadas a poder, assédio, privilégios, linguagem e representação estão constantemente em debate. O que me interessa em Oleanna é que ela não transforma essas discussões em algo simples. Ela mostra como uma mesma situação pode ser percebida de formas completamente diferentes. E nos obriga a refletir sobre o espaço entre intenção e percepção, algo que continua extremamente presente nas relações humanas.

 

GM - Além de atuar, você também assina a produção do espetáculo. Como é conciliar os desafios artísticos e administrativos de uma montagem?

VS - Amplia meu olhar sobre o projeto. Como idealizador, eu preciso pensar na estrutura que permite que o espetáculo aconteça. Como ator, preciso estar disponível para a cena. Mas eu só consigo fazer isso porque estou cercado de uma equipe muito sólida. O Fabio Camara é nosso diretor de produção, então concentramos grande parte nele. Isso me dá tranquilidade para focar no trabalho artístico sem perder de vista o todo.

 

GM - Depois de anos dedicados ao teatro musical, quais são as principais diferenças e exigências que encontrou ao voltar ao teatro de prosa?

VS - O musical exige uma combinação muito específica de canto, dança e interpretação. Já a prosa me coloca diante de outros desafios. Em Oleanna, por exemplo, não existe uma música que interrompa a tensão ou uma grande mudança de cena. Tudo acontece através da palavra, da escuta e da relação entre os personagens. Isso exige uma precisão enorme e uma presença constante. Sem contar a quantidade de texto que é absurda nessa peça.

 

GM - Seu personagem em "Oleanna" é marcado por contradições e ambiguidades. Qual foi o maior desafio na construção desse papel?

VS - O maior desafio foi equilibrar a ambiguidade e todas as camadas do personagem sem julgá-lo ou mostrar apenas um lado dele. Tem aspectos com os quais me identifico, como a paixão pelo que faz e pela educação. Mas também existem diferenças muito grandes entre nós. O trabalho foi justamente sustentar essas contradições sem tentar simplificá-las ou resolvê-las.

 

GM -  Entre os projetos no palco, na televisão e o trabalho de formação de atores no Espaço Colab, como você enxerga este momento da sua carreira e os próximos passos que pretende seguir?

VS - Vejo como um momento de construção e aprofundamento. Tenho tido a oportunidade de atuar, produzir e também compartilhar aquilo que aprendi ao longo dos anos por meio do Espaço Co.Lab. Dar aula é algo que me alimenta muito porque também aprendo constantemente com os alunos. Nos próximos anos, quero continuar desenvolvendo projetos que me desafiem artisticamente. Já estou preparando True West, de Sam Shepard, e pretendo seguir transitando entre teatro, audiovisual e formação de atores, sempre buscando trabalhos que façam sentido para o momento que estou vivendo.

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