O que muda quando muda quem ocupa a mesa?
- Isabella Cunha

- 3 de jul.
- 2 min de leitura

A Copa do Mundo costuma ser um período em que o futebol ocupa todos os espaços: muita gente fala que nem vai assistir aos jogos e, com o tempo, capta a energia. Apesar de ser importante discutir sobre a estrutura do futebol, a gente passa a conhecer muitos casos que mostram a riqueza das histórias por trás da bola. É certo que muitas notícias que acontecem longe das quatro linhas chamam mais atenção do que qualquer resultado.
Nos últimos dias, duas coisas me fizeram pensar.
A primeira veio da Argentina, que enviou às autoridades dos Estados Unidos um cadastro com milhares de pessoas devedoras de pensão alimentícia, tentando impedir seu acesso aos estádios durante a Copa do Mundo. A medida amplia uma política que já vinha sendo adotada em Buenos Aires, onde inadimplentes podem ser barrados também em shows e outros grandes eventos.
A segunda aconteceu no Brasil. Sob a presidência de Leila Pereira, o sistema de reconhecimento facial implantado no Allianz Parque passou a identificar pessoas devedoras de pensão, impedindo-as de entrar no estádio.
Quando determinados espaços de poder são ocupados quase exclusivamente pelos mesmos grupos, certos problemas simplesmente deixam de existir no debate público.
As duas notícias falam sobre futebol, mas vão além. Enquanto lia sobre esses casos, lembrei da reflexão da filósofa Djamila Ribeiro: “O lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas.” (RIBEIRO, 2017, p. 40). Costumamos interpretar essa ideia apenas como um debate sobre quem pode falar, mas, na verdade, é necessário pensar sobre quem decide quais assuntos merecem atenção.
Durante muito tempo, o futebol foi construído em um ambiente predominantemente masculino. Não apenas dentro de campo, mas também nos espaços de decisão. Quando um mesmo grupo ocupa esses lugares por tanto tempo, é natural que determinadas prioridades se consolidem. Outras nem entram na pauta.
Talvez seja por isso que não tenha sido tão simbólico ver uma presidente de clube colocar em evidência uma questão que sempre existiu, mas raramente era associada ao ambiente do futebol.
Diversidade não existe apenas para tornar ambientes mais representativos. Ela existe porque amplia o repertório das decisões. Quando pessoas diferentes chegam aos espaços de poder, elas levam consigo perguntas que talvez nunca tivessem sido feitas. Problemas que pareciam invisíveis passam a ganhar nome, prioridade e, em alguns casos, soluções concretas.
O futebol ainda convive com uma cultura que transforma atletas em ídolos quase intocáveis, muitas vezes dissociando o desempenho esportivo das responsabilidades assumidas fora de campo. Esse debate não começou agora e tampouco termina com medidas como as adotadas no Allianz Parque ou na Argentina. Mas elas sinalizam uma mudança importante: a de que algumas questões deixam de ser tratadas como "assuntos particulares" quando passam a ser compreendidas como questões coletivas.
Culturas não mudam apenas quando chegam novas pessoas à mesa. Elas mudam quando essas pessoas ampliam o que a mesa é capaz de enxergar.



Comentários